“Os conceitos de “público” e “privado”
podem ser vistos e compreendidos em termos relativos como uma série de
qualidades espaciais que, diferindo gradualmente, referem-se ao acesso, à
responsabilidade (...)” (Pg. 13). No livro, Hertzberger afirma que cada
elemento numa construção se apresenta como um universo próprio, alguns menores
do que outros. Diante dessas ideias, começo a análise e problematização da
minha residência com o ambiente mais privado e o menor universo: meu quarto.
Com um acesso determinado a um pequeno grupo de pessoas, no caso eu e meu
irmão, apresenta espaços de responsabilidade individual e outros de
responsabilidade mútua. “Espaços podem ser concebidos como um lugar mais ou menos
privado ou como uma área pública, dependendo do grau de acesso, da forma de
supervisão, de quem o utiliza, de quem toma conta dele e de suas respectivas
responsabilidades.” (Pg.14) Diante disso, mostra-se notório que mesmo no espaço
mais privado ainda há uma separação entre o que é de todos e o que é de cada um,
entre o que é mais público e mais privado. Como o quarto possui dois usuários,
cada um possui a sua cama e é responsável por ela, cuidando e decorando-a de
modos diferentes. Já a escrivaninha, presente no quarto, é de uso coletivo, de
forma que há um compromisso mútuo para cuidar dessa área. Além disso, pela disposição
das camas no espaço, pode-se criar uma inter-relação entre mim e meu irmão,
visto que estão uma do lado da outra, sem um obstáculo significativo que
obstrua a visão ou impeça uma comunicação. “Vamos tomar, por exemplo, um espaço
escuro ou um nicho – para a maioria das pessoas, ele vai sugerir um canto
isolado e seguro, mas para cada indivíduo ele terá um significado diferente.”
(Pg. 162) Ainda no quarto, há um espaço embaixo da escrivaninha, um vazio
gerado por ela que foi utilizado para guardar materiais escolares e outros
objetos, de modo que evidencia um despertar da interatividade do morador com o
espaço, adaptando suas funções e formas a fim de satisfazer uma exigência individual.
Esse espaço vazio pode mudar de função dependendo da necessidade e do usuário,
de acordo com a situação presente, oferecendo diversas possibilidades espaciais.
“Não seria difícil citar mais exemplos de como uma forma em grande escala pode,
de maneira não-intencional, permitir interpretações diferentes.” (Pg.106)
 |
| Espaço vazio embaixo da escrivaninha |
Analisando um espaço determinado a um
grupo maior de pessoas, o restante do apartamento apresenta diversas outras características
marcantes levando em conta os conceitos de Hertzberger. Há um claro ordenamento
no espaço, visto que cada parte do apartamento apresenta uma dimensão coerente
para seu objetivo, com o tamanho certo para melhor se tornar o que é. As áreas que
geram um maior contato entre os moradores, de maior convivência, como a sala de
estar e jantar, são de dimensões consideravelmente maiores do que áreas mais
privadas, como os quartos ou a cozinha, uma vez que foi pensado para receber as
visitas e favorecer as relações entre os moradores. Ademais, a sala de estar apresenta
um espaço vazio e sem uso efetivo entre o sofá e a janela. Essa área poderia
ser muito mais aproveitada e explorada devido as amplas possibilidades que
oferece. “Devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem
utilidades, e que, como não servem para nenhum objetivo, são inabitáveis.” (Pg.
186) Dessa forma, evidencia-se a falta de indicações de possibilidades pelo
arquiteto, o que gerou um espaço perdido e sem utilidade, de modo que foi desperdiçado.
 |
| Espaço desperdiçado entre o sofá e a janela |
Analisando os quartos, mostra-se como
importante o ordenamento entre eles. O quarto principal, da minha mãe, encontra-se
no final do corredor, mais distante e dessa forma ainda mais privado. Por
possuir uma expansão do corredor, torna-se impossível observar o quarto de outras
áreas da casa, diferentemente dos outros dois quartos, visíveis em sua totalidade
pelo corredor, além de que muda o grau de acesso. Nesse sentido, comprova-se
uma gradação de espaços cada vez mais privados dentro do próprio ambiente privado.
 |
| Extensão do corredor para o quarto principal, tornando-o mais privado |
 |
| Outros quartos são visíveis do corredor |
Ainda no apartamento, há a área de
serviço, adaptada para diversas funções diferentes sem perder sua essência ou
forma. Horta, lavanderia e até mesmo algumas refeições podem ser realizadas
nessa mesma área, de modo que apresenta uma polivalência. Há também um quartinho
menor nos fundos, que foi projetado para ser um quarto de empregada. Entretanto,
atualmente serve como escritório não utilizado e depósito de materiais de
artesanato, linhas, livros antigos e decorações temáticas, ou seja, esse cômodo
apresenta uma função diferente da planejada. O mesmo ocorre com um banheiro sem
uso, transformado em um local para guardar produtos de limpeza e jogos. Isso se
dá pela separação entre forma e função, o que inspira novas formas de uso além
de novas aplicações, de modo que acomoda situações mais apropriadas para os
moradores de acordo com suas prioridades do que aquelas pensadas pelos arquitetos.
Houve uma liberdade de interpretação. Esses dois ambientes apresentam também uma
maior desorganização, visto que ninguém é responsável de fato por ele, não tendo
um envolvimento com o arranjo. “Podem-se criar as condições para um maior senso
de responsabilidade e, consequentemente, também um maior envolvimento no arranjo
e no mobiliamento de uma área. Deste modo os usuários viram moradores.” (Pg.
28)
 |
| Banheiro que virou espaço para guardar produtos de limpeza |
Ademais, na cozinha há uma bancada que
possui diversas funções de acordo com situações divergentes no dia a dia. Ela serve
para guardar utensílios da cozinha nas gavetas, como uma superfície para preparar
os alimentos, além de uma mesa para realizar as refeições.
 |
| Bancada da cozinha |
 |
| Área de serviço, com lavanderia, mesa para refeições e horta |
Levando a análise para uma área mais pública
e de maior convivência entre diferentes moradores do prédio, o hall na frente da
porta de entrada do apartamento apresenta-se como uma reconciliação entre um espaço
menos privado e um mais reservado, de forma que é uma transição entre área com
demarcações territoriais diferentes. Uma extensão para receber ou se despedir
de visitas, para encontrar e dialogar. Mesmo em um prédio, há esse espaço e,
caso a pessoa deseje descer para acompanhar a visita, a mesma lógica repete-se
no térreo para a rua, com uma soleira coberta e com uma escadaria, transições para
o espaço mais público: a rua. “Transição e a conexão entre áreas com demarcações
territoriais divergentes e, na qualidade de um lugar por direito próprio,
constitui, essencialmente, a condição especial para um encontro e o diálogo
entre áreas de ordens diferentes.” (Pg. 32)
No hall dos andares, nota-se também diversas demarcações
privadas em um espaço de todos. Espaços intermediários que pertencem ao domínio
público e ao privado. “O conceito de intervalo é a chave para eliminar a
divisão rígida entre áreas com diferentes demarcações territoriais.” (Pg. 40) Alguns
apartamentos colocam quadros, sapateiros, plantas e tapetes para o lado de fora,
de modo que cria marcas individuais e uma maior responsabilidade com esse
espaço, conservando-o. Além disso, cria um espaço comunitário, uma vez que,
consoante Hertzberger, são usados de modo mais intensivo quando é investido
tempo e um cuidado pessoal. Isso só foi possível pois a administração dessas
pequenas áreas foi entregue a quem está diretamente ligado e envolvido no
local. “O segredo é dar aos espaços públicos uma forma tal que a comunidade
contribua à sua maneira para um ambiente com o qual possa se relacionar e se
identificar.” (Pg. 45)
 |
| Hall do andar com demarcações privadas |
 |
| Hall do andar com demarcações privadas |
As portas presentes em toda a construção
do prédio contribuem para um maior ordenamento, controle da relevância da
demarcação territorial além das possibilidades de acesso aos espaços vizinhos. Isso
se dá pelos materiais e formas das portas que seguem o grau de acesso exigido
pelo espaço. “Quando um código desse tipo é adotado coerentemente por todo o edifício,
é entendido racional ou intuitivamente por todos os usuários do prédio.”
(Pg.18) A porta que separa a área social da de serviço no hall, por possuir grandes
proporções e ser feita de madeira evidencia a intenção de esconder a passagem
de prestadores de serviços ou mudanças, de modo que torna essa área menos acessível
e mais privada. Todo o edifício adota esse código, de modo que intuitivamente é
entendido por todos e esclarece as organizações de acesso. Há uma porta no térreo
com um painel de vidro que separa o hall do elevador de serviço, enquanto não há
porta alguma que separa os elevadores sociais. Um outro exemplo é a porta
totalmente de vidro na entrada do prédio.
Essa transparência gera uma atmosfera leve e arejada, segundo
Hertzberger, de forma que deixa o ambiente mais convidativo a ser adentrado. Por
isso, todo esse padrão repetitivo nas portas e entradas gera uma maior compreensão
do ordenamento do prédio
 |
Porta de madeira que separa a área social da de serviço
|

|
| Porta com placa de vidro que separa o elevador de serviço no térreo, enquanto elevador social sem nenhuma porta |
 |
| Portas de vidro na entrada do hall no térreo |
A área de convivência no prédio, com
poltronas para um maior contato entre os moradores, apresenta três espaços
separados por paredes de vidro, sendo um deles uma área externa. A transparência
do vidro apresenta-se como de grande importância, visto que separa as áreas para que grupos
diferentes possam conversar sem se sentirem invadidos, mas também não elimina a
unidade espacial, uma vez que ainda é possível um contato visual. Desse modo, é
um local fechado, mas convidativo e hospitaleiro, muito bem aproveitado. Ademais,
as paredes de vidro para a rua permitem um estar fora estando dentro, já que
permite um contato visual com a rua e tudo o que ocorre nela. Além de que essas
áreas de convivência garantem uma grande variedade de interpretações de uso,
servindo para tomar Sol, conversar com quem está entrando e saindo do prédio ou até mesmo sendo usado por crianças para brincar de jogos de tabuleiro.
 |
| Área de convivência externa |
 |
| Áreas de convivência interna separadas por parede de vidro |
Na passagem do privado para o que há de
mais público, a rua, uma grande escada desce da portaria. Essa transição gradual
entre o privado e público garante uma visão melhor para quem se encontra dentro
do prédio graças a diferença de altura, já que estão acima do campo de visão
daqueles que passam pela rua. Dessa forma, garante privacidade sem excluir. “Devemos
sempre procurar o equilíbrio entre visão e reclusão, ou seja, buscar uma
organização espacial que torne qualquer um, em qualquer situação, capaz de
escolher sua posição em relação aos outros.” (Pg. 202)
 |
| Escadaria para a portaria |
Na rua, há uma mureta nos limites do
jardim do prédio para a calçada, que se apresenta como uma forma convidativa
que garante diversas interpretações de uso. A rua como uma sala de estar
comunitária, defendido por Hertzberger, é observado quando as pessoas se sentam
na mureta para conversar, esperar alguém ou alguma carona ou ver uma procissão religiosa
passar, visto que sempre cria interações entre as pessoas. Essa polivalência e interpretação
de acordo com a situação da mureta faz com que seja muito mais do que apenas
uma limitação do jardim, uma vez que sua flexibilidade, sem mudar sua essência e
forma, garante diversos usos diferentes do previsto. Adapta-se à diversidade e
à mudança conservando a sua identidade. Contudo, com o crescente aumento do
tráfego na rua, cada vez menos pessoas sentam naquele ambiente para conversar.
 |
| Mureta nos limites do jardim |
Portanto, comprova-se como os conceitos de
Hertzberger em seu livro podem ser aplicados nas mais variadas áreas e espaços,
inclusive em um antigo prédio de uma cidade do interior.
Correção feita por Daniele, Julia de Oliveira e Milton:
ResponderExcluirO aluno discorre bem sobre os tópicos tratados no livro, apontando bons exemplos em sua residência, com clareza e aprofundamento, além de uma boa variação desses tópicos, o que sugere que a leitura foi aprofundada e proveitosa, fazendo com que esse demonstre ter conhecimento satisfatório sobre o assunto que expõe.
Acredito que a pontuação de trechos do livro foram uma boa exploração para facilitar o esclarecimento. Além disso, é perceptível a boa articulação das palavras durante a análise, que por sua vez, a tornam muito clara. Nesse sentido, o aluno também consegue unir mais de um tópico em um único espaço, tornando a análise ainda mais profunda e completa.
Vejo a inovação na leitura do espaço na presença de boas imagens, que colaboraram e foram essenciais para a melhor compreensão do que estava sendo retratado.