Análise do espaço nos filmes

 Metrópolis (1927)

       
"O Mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o coração"


      O filme Metrópolis (1927), dirigido por Fritz Lang e baseado no livro de Thea von Harbeau, apresenta de forma monumental um mundo futurístico controlado por máquinas e dividido em duas cidades: a Metrópolis (inspirada em Nova York), na superfície; e a Cidade dos Trabalhadores nas profundezas do subsolo. A primeira apresenta prédios altos e diversos, luzes, aviões, tecnologia, pontes, além de ser habitada pelas cabeças da cidade, os Mestres e seus filhos. Já a segunda, habitada pelos trabalhadores, as mãos que fazem tudo funcionar, apresenta construções simples e iguais. O movimento em Metropolis, tanto das pessoas como do espaço, é fluido, livre, enquanto nas profundezas tudo é organizado e controlado.


Metrópolis com sua diversidade e sofisticação contrasta com a Cidade dos trabalhadores

      

      Um marco no expressionismo alemão, o filme trabalha com dualidade e contrastes em toda a sua narrativa, que evoca temas atuais. Mas além disso, o espaço reproduz e contribui com grande importância para essa sensação. Por todo o filme há um contraste entre a luz e a escuridão, uma vez que filmes em preto e branco utilizam a iluminação ainda mais para transmitir sentimentos e controlar o olhar do espectador pelo espaço. Como na cena em que Maria é a única com roupas claras no meio de trabalhadores de roupas escuras, ou na que Freder esta na parte clara do cenário, contrastando com as silhuetas escuras dos trabalhadores machucados. Isso fica ainda mais evidente na cena em que um trabalhador, ao controlar o relógio, fica escuro comparado com o cenário. As maquinas brilham, enquanto o trabalhador fica abaixo e parece ainda mais na escuridão. Ainda mais, a cena da Torre de Babel evidencia esse contraste, com os trabalhadores sempre em multidão e aglomerados no espaço, enquanto os "cérebros" estão sempre sozinhos, em locais mais elevados e contra a luz. Nessa cena, a escada reflete a ascensão desejada pelos trabalhadores. 





       




      O espaço é determinante para a construção da dualidade também nas cenas em que Maria foi substituída pela Máquina. Antes, o cenário e a câmera ficam em harmonia e simétricos em relação a personagem, depois, ficam tortos e não centralizados, refletindo a mudança.








      Para uma discussão mais detalhada sobre o espaço, escolhi a cena da Morte que dança (1h13min). 

       Nessa cena, o espaço, juntamente com a câmera e a iluminação, se tornou o protagonista do filme. O contraste entre luz e sombra, como já dito anteriormente, aparece novamente. Ademais, a câmera, na maior parte do filme estática, fica mais agitada acompanhando os passos de dança. E a transição do palco, para a plateia e para o quarto de Freder é feito de forma rápida, de modo que transforma os 3 ambientes em um só.  A sensação de controle pelo espaço, exercido pela dançarina é transmitido para o espectador, que se vê bombardeado pelo espaço. A ausência de fundo no palco, a ausência de um cenário, reflete o poder e o destaque da personagem, enquanto a plateia, com seus olhos que tomam conta do ambiente, suas faces, evidenciam que estão controlados, manipulados. A imersão é completa. O espaço envolve o espectador tanto na sua ausência quanto no seu excesso. Além disso, quando os sete pecados capitais dançam, a morte olha e anda para a câmera, de forma que o espectador se sente ceifado, junto com a cidade. Nessa mesma sequência, um homem luta com outro, e é como se um dos lutadores fosse quem assiste. A câmera, que antes não envolvia o espectador, agora o torna um personagem que ocupa um espaço no filme.







      Uma outra cena em que a ausência de espaço visível causa uma maior imersão, e ironicamente destaca o próprio espaço, é a cena da perseguição de Maria pelo inventor. A sensação de perigo, escuridão e angustia é transmitido com grande impacto.







O Iluminado (1980)

"All work and no play makes Jack a dull boy"

      O filme "O Iluminado" (1980), dirigido por Stanley Kubrick, e baseado na obra homônima de Stephen King, apresenta-se até os dias de hoje como um clássico do terror. Suas filmagens fazem o espectador se sentir um intruso no espaço, como na cena do triciclo pelo corredor (36min). Com a câmera na altura do personagem, estamos como ele sujeitos a qualquer influencia do espaço. O espaço é grande, vasto, opressivo com longos corredores, e estamos como o personagem sujeitos a tudo isso. 







      Além disso, a constante simetria e uso de perspectiva nos enquadramentos transmite uma grande sensação de artificialidade. Isso evidencia-se também na cena em que Jack recebe seu café na cama. Vemos todo o desenrolar dessa simples cena através do reflexo de um espelho, e não percebemos isso de primeira.






      Ademais, o exterior do hotel vai ficando cada vez mais escondido pela neve, menos aparente, o que destaca o interior, onde tudo acontece. Como curiosidade, percebe-se como impossível que todos os ambientes mostrados no interior do hotel coubessem de fato na construção que é mostrada.



 




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