Análise Fotográfica - Mario Cravo Neto e Maureen Bisilliat

        Na aula do dia 10/12, fomos divididos em grupos e cada um recebeu dois fotógrafos a fim de que fosse realizado uma análise sobre as estratégias de composição gráfica e fotográfica de cada artista, além de perceber como dialogaram com os problemas. Para isso, deveríamos escolher duas fotos em preto e branco de cada um. 

      O meu grupo ficou responsável por analisar as obras de Mario Cravo Neto e Maureen Bisilliat.


Mario Cravo Neto

      Mario Cravo Neto, nascido em Salvador, na Bahia, possui experiência em diversas áreas, como escultura, cinema, desenho e fotografia, e seus trabalhos exibidos em todo o mundo.

      Na fotografia, explorou como tema a natureza, o povo da Bahia e especialmente o candomblé, de forma que apresenta uma grande valorização do sagrado. Evoca sua formação como escultor ao criar dramaticidade em suas fotos utilizando luz e sombras, de modo que ressalta o aspecto tátil, que valoriza os relevos e os planos. Mostra a carga emotiva dos retratados, não busca ser documental. Além disso, sua fotografia busca estimular os sentidos, como cheiros e texturas. Apresenta uma fotografia de estúdio, utiliza luzes baixas e enquadramento fechado, responsável por realçar o objetivo de cada foto.

      Para uma análise mais detalhada, selecionamos duas fotografias: "Deus da Cabeça" (1988) e "Homem com dois peixes" (1992).


"Deus da Cabeça" (1988)



      Nessa obra, fica evidente o tema do sagrado e a forte carga emotiva. O fotógrafo utiliza texturização, juntamente com luz e sombras para destacar os elementos presentes na fotografia. Dessa forma, com sensibilidade no uso da luz, valoriza entalhes e relevos das peças. Essa técnica é facilmente observável na pele do homem, recoberta com tinta branca que contrasta com o tom da pele; no casco da tartaruga; além de no cabelo. Diante disso, uma sensação tátil é despertada no observador.

      Apresenta também o enquadramento fechado, que consiste na aproximação da câmera do objeto, de forma que ele ocupa quase todo o cenário, criando assim, um plano de intimidade e expressão. Ademais, o fundo infinito e a estaticidade dos elementos, características das fotos do artista, também contribuem para o destaque dos elementos.



"Homem com dois peixes" (1992)

      Nessa segunda foto, pode-se observar técnicas semelhantes a da primeira foto, como a texturização do peixe, realçada pela luz e sombra; o enquadramento fechado; fundo infinito e realizado em estúdio. No entanto, nota-se uma luz mais forte vinda da esquerda e de cima, que além de ajudar a destacar relevos, determina o enfoque nos peixes mais do que no homem que os carrega. Ademais, essa luz também destaca a água que escorre pelo corpo, que fica mais escura. Dessa forma, nessa fotografia, o jogo de luz e sombras mostra-se mais importante para que fosse atingido o produto final, uma vez que foi essencial para realçar o objetivo primeiro da obra.



Maureen Bisilliat

      Maureen Bisilliat, fotojornalista, viveu uma infância entre diversos países como a Inglaterra, Estados Unidos, Dinamarca, Colômbia, Argentina e Suíça. Porém, esse "desenraizamento cultural", como ela mesma apontou, terminou quando mudou-se para São Paulo, em 1953. Após contato com escritores nacionais, teve a ideia de realizar um trabalho de "equivalência fotográfica" sobre obras literárias brasileiras, a fim de "testemunhar esse mundo". Por isso, percorreu o sertão de Minas em busca de cenários que fizessem referencias as obras de Guimaraes Rosa (Grande sertão: veredas). Realizou projetos consistentes e profundos sobre realidades desconhecidas para a época, os quais evidenciam cumplicidade entre fotografado e fotógrafa. 

      Ademais, como técnica em suas composições, Maureen utiliza mais iluminação natural e cenários do cotidiano dos fotografados. Tambem evoca sua formação como pintora, ao aplicar a regra dos terços e perspectivas em suas fotos.

      Para uma análise mais detalhada foram escolhidas duas fotografias: "A João Guimarães Rosa" (1966) e "Menino Anjo" (1965).


"A João Guimarães Rosa" (1966)


      Em "A João Guimarães Rosa" (1966), Maureen retrata o cotidiano dos vaqueiros do sertão mineiro. Nessa obra, fica evidente a influência da formação de pintora da fotógrafa, notável pelo uso da regra dos terços, que destaca as figuras dos vaqueiros. Essa regra consiste na foto ser dividida em duas linhas verticais e duas horizontais, de modo que forma 9 quadrantes e o destaque nas áreas de encontro. Além disso, observa-se  o uso de luz natural, característica da artista. Ademais, o ponto de fuga da obra coincide com a fonte de iluminação, de modo que direciona o olhar do observador, além de que cria sombras na parte inferior.


"Menino Anjo" (1965)

      Da série "Pele Preta", realizada por Maureen na década de 60, essa fotografia, além de também possuir uma presença literária do poeta Jorge de Lima, traz questões importantes com o uso dramático de luz. Essa luz natural, oriunda da janela a esquerda faz com que elementos específicos como a face do menino, as asas e o ambiente externo fiquem iluminados, enquanto outros fiquem sombreados. Além disso, a luz cria também uma sensação tátil uma vez que realça as asas. A da esquerda bem clareada, enquanto a da direita, com sombras, valoriza as texturas. Diante disso, nota-se que os jogos de luz possuem objetivos de provocar o espectador para refletir sobre o que vê. Nesse caso, os sonhos da criança que quer voar e a emersão e presença do negro na sociedade.


      Por fim, conclui-se que ambos artistas possuem semelhanças e diferenças em suas estratégias de composição. Enquanto Cravo Neto realiza seu trabalhos em estúdios com luz artificial, Maureen realiza com cenários do cotidiano e luz natural. Porém, apesar de todas diferenças, é notável como ambos possuem uma fotografia extremamente planejada para que os elementos certos sejam realçados. E, para isso, utilizam luzes e sombras.




      


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